Reestruturação de estoque melhora fluxo de caixa

 

Por Alessandra Morita – alessandra.morita@sm.com.br – 13/07/2017

Veja o que pode ser feito para se ter um nível de produtos estocados que favoreça o capital de giro e ajude a retomar as compras adequadamente

A cascata de problemas gerada pela insuficiência de capital de giro e, em muitos casos, pelo alto endividamento das empresas continua trazendo dificuldades para o varejo alimentar. Entre as principais, mantêmse a redução das compras, que leva à ruptura principalmente de itens de alto giro; e o enxugamento equivocado do sortimento, impactando na satisfação do consumidor e, portanto, nas vendas. Apesar disso, já há redes combatendo o problema por meio da reestruturação de seus estoques. Segundo Luiz Melo, diretor de produtos e supply chain da 360ºVarejo Consultores & Associados, essa medida consiste em equalizar a quantidade de mercadorias estocadas, mantendo um sortimento adequado para o negócio, mas sem perder vendas ou gerar excedentes de produtos sem giro, o que compromete o fluxo de caixa. Atingir esse nível ideal não é uma tarefa fácil. Há muitos cuidados que precisam ser tomados nos mais diversos processos, que vão das compras do fornecedor até o produto ser adquirido pelo consumidor final nas lojas. “Falta controle sobre recebimento, pedido e troca, além de auditoria dos procedimentos”, diz Lauro Junior Bueno, diretor da consultoria Unitrier. Acompanhe a seguir alguns pontos que merecem sua atenção.

Compras no detalhe

“É preciso analisar o estoque como um todo para realizar a compra corretamente”, afirma Bueno, da Unitrier. Ele explica que, muitas vezes, a área comercial olha só a posição geral de estoque, mas não entra no detalhe das filiais. “Com isso, deixa de identificar, por exemplo, lojas em que há excesso de determinada mercadoria. Nesse caso, seria possível transferir o excedente para outra unidade em que há falta”, explica ele. “O custo de mercadoria representa cerca de 70%, em média, das despesas de um supermercado. Qualquer erro na compra tem um impacto grande no resultado financeiro do negócio”, alerta.

Mudança na negociação

Em um momento de dificuldade financeira, o mais indicado é concentrar as compras nos itens de alto giro. “Nessa hora, o varejo deve buscar ampliar o prazo de pagamento e explicar ao fabricante por que irá comprar somente os produtos de maior rotatividade”, afirma Leonardo Marques, professor de logística e supply chain do Instituto Coppead, ligado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Para ele, o fornecedor tem interesse em manter o cliente. “Se houver uma relação de parceria, a indústria vai entender que o varejo voltará a comprar outros produtos futuramente. Em uma situação difícil, não faz sentido empurrar portfólio”, diz o especialista, lembrando que o fornecedor também enfrenta dificuldades semelhantes às do varejista. Marques alerta ainda para as compras de oportunidade – aquelas em que o varejista compra mais do que a demanda da loja para ter um bom desconto. “Isso vale a pena se for um produto de compra por impulso, para não superestocar o consumidor. Mas essa prática é perigosa para a margem no longo prazo”, avisa o especialista do Coppead.

Inventário e correção de dados

Realizar inventários periodicamente é importante para corrigir dados do sistema. A partir disso, a área comercial pode ajustar os volumes negociados com os fornecedores, tendo como base as reais necessidades da empresa. Segundo a Unitrier, produtos das curvas B e C podem ter inventários a cada três e seis meses, respectivamente. Já os da curva A devem ter a contagem física de produtos realizada com frequência inferior. No caso de perecíveis, como hortifrútis, o inventário deve ser semanal.

Contagem periódica
Alguns produtos de alto giro devem ter inventário realizado mensalmente. No caso de perecíveis, até semanalmente

Itens de baixo giro e prazos

Segundo Bueno, da Unitrier, o excesso de produtos de baixo giro em estoque interfere diretamente no caixa. Em geral, o varejista demora para vender, embora já tenha pago à indústria. É importante ajustar os prazos de recebimento do cliente para serem inferiores aos de pagamento aos fornecedores. Leonardo Marques, do Coppead, lembra que, na hora de eliminar itens, nem todos os de baixo giro devem ser cortados. “Existem marcas bem trabalhadas pelo fabricante, que formam a imagem da loja. Há também aqueles itens que atendem nichos específicos”, explica. Para ele, o maior problema são as mercadorias com baixo giro e baixa margem, pois conduzem à prejuízos.

Erros no controle

Equívocos nos processos internos podem gerar estatísticas erradas quanto a quantidade de produtos em estoque. Isso atrapalha a área comercial na hora da compra e eleva custos. Confira:

  • A área de recebimento aceita a carga do fornecedor mesmo com a quantidade errada. A divergência não é apontada no sistema, mantendo-se o volume do pedido original, o que distorce estatísticas e análises e, portanto, novos pedidos
  • Mercadoria bonificada não é lançada no estoque, assim como transferências de produtos entre filiais
  • O mesmo acontece quando os produtos da loja são utilizados para produção em seções como padaria e confeitaria
  • Muitos varejistas deixam de considerar a data de vencimento dos produtos no cálculo do estoque. “Essa informação nem sempre é levada em consideração no reabastecimento. Por conta disso, as perdas de mercadorias aumentam, afetando o estoque e prejudicando as vendas”, afirma Luiz Melo, da 360ºVarejo